sábado, 30 de janeiro de 2010

Simplesmente seja

Nada que umas boas horas de música não resolva. É só ligar o rádio e ouvir aquela música de que tanto gosta, que o dia se transforma. Esquece os problemas, as dívidas, a falta de tempo e de dinheiro, o pouco cuidado consigo mesma e, pelo menos por um momento, despe-se de suas máscaras e existe, e é!
Existe por si mesma, sem medos, sem pudores, sem amarras, sem vergonha e canta! E canta alto, e ri e chora, numa mistura de emoções maravilhosamente boas que só ela há de compreender. Porque não há coisa melhor nesse mundo do que música! Só a música acalma, emociona, conforta!
É o som! Não são as palavras cantadas, mas a batida, o ritmo, a melodia! É o som que liberta, que inspira, que faz o coração bater mais forte ou uma lágrima escorrer no canto do olho. É a melodia que representa a alegria ou tristeza do momento, ou mesmo aquela mistura confusa e excitante de emoções. As palavras cantadas são o complemento, a possibilidade de expressar-se, de tentar, inutilmente, cristalizar emoções.
Então simplesmente fecha os olhos, sente o vento batendo no rosto e canta! E se emociona! Esquece de quem está ao redor ou de quem possa ouvi-la ou do que seja lá que vão pensar. Não importa! No meio do caos cotidiano, às vezes esquece de si mesma, de seus gostos e suas vontades e apenas vive...empurra com a barriga e esquece de existir.
Este momento é seu e só seu! Ninguém mais compreende o que a música representa. Ela existe pela música! Sente-se viva e completa em sua individualidade. Sente-se feliz, e não importa que esteja só, é justamente isso que é lindo! Ela está só, num momento seu, e isso basta! Não precisa de riquezas ou de pessoas ao redor pra sentir-se feliz. Ela mesma se basta!
Sabe que estar momentaneamente só não significa solidão. Sabe que se sentir bem consigo mesma, em seu mundo mais secreto e íntimo é totalmente o oposto de solidão. Sabe que é só abrir os olhos que entenderá a razão de sentir-se feliz e completa!
O mundo está ali, diante do seu nariz e ela gosta do que vê, do que sente, do que faz e do que vive. É uma felicidade que não cabe em si, então a música a faz sentir intensamente as emoções vividas, a faz compreender a razão de ser completa e ser feliz. Então ela sabe que basta ser, em essência e intensidade para existir.

“Simplesmente seja, o que você julgar ser o melhor”
(Maria Rita)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os insetos interiores

Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.

A futilidade encarrega se de "mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.

Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se

A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

[O Teatro Mágico]

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Defendendo-se de abraços...

Depois de tanto me defender de abraços, percebi o quanto é difícil despir-se de pré-conceitos e estar aberto ao outro, ao que ele possa oferecer, sem medo, sem defesas, sem pudores. Foi apenas quando consegui despir-me de todas as minhas armaduras e estar simplesmente presente e disposta para o outro que Deus me presenteou com a maior riqueza deste mundo: o amor!
Sempre escuto as pessoas dizerem: “Tadinho...ele é deficiente” e eu detesto escutar a palavra ‘tadinho’. Penso que nenhum ser humano é digno de pena, pois com deficiência ou não, aquela é a forma da pessoa existir e todos nós temos que aprender a lidar com nossa forma de existir no mundo, independente de termos alguma deficiência.
É fácil quem está de longe, olhar e sentir pena. Também não condeno essas pessoas. Antes de ter o contato com pessoas com deficiência, sempre tinha a sensação de sofrimento ao ver uma criança ou um adulto com deficiência – fosse física ou cognitiva. Após conhecer as mais de perto esta realidade, percebi uma coisa muito simples: a deficiência estava em mim!
Maior do que as dificuldades que eles tinham por conta de sua deficiência, era a minha dificuldade em despir-me de meus medos, de minha timidez e de minha própria estranheza para simplesmente ser no mundo, como sou, sem vergonha de ser ou parecer ser. Maior era a minha deficiência em saber sentir. A deficiência estava em mim por achar que toda e qualquer deficiência era um sofrimento imenso pro ser humano. Que nada! Eu sofria mais em ver a deficiência do que aquele que realmente a tinha.
Com o tempo fui aprendendo a lidar com a minha deficiência em sentir estranheza com relação ao outro ser humano pelo simples fato dele ter uma deficiência. Inúmeras vezes me defendi de abraços, por receio de que eu iria tomar um tapa. Besta eu! Aprendi que a fisionomia de uma pessoa não diz muito a respeito de seu jeito de ser e de suas atitudes. Agora, antes de me defender quando uma criança ou mesmo adulto com deficiência vem em minha direção, simplesmente fico lá, disposta pra receber o que quer que seja que possa me oferecer. Garanto que 98% das vezes, recebo abraços, beijos, carinho ou até mesmo elogios. E que é a coisa mais gostosa que já ganhei. =)
Uma coisa é certa: a deficiência está no coração das pessoas! “Os deficientes não são só aqueles que não andam, não falam, não ouvem, não vêem, não compreendem com clareza, mas sim todas aquelas pessoas fracas que não conseguem ajudar aos outros e a si mesma...” [Carlos Eduardo]
Uma coisa rica que aprendi, foi a lidar com minha deficiência: eu aprendi a sentir, a ser, a compreender e a amar! Aprendi que não é preciso palavras pra dizer ‘muito obrigada’ ou ‘gosto de você’, basta compreender um gesto, saber ler o olhar. Não é preciso andar para se ter grandes conquistas, basta determinação.
Quando se olha para o ser humano por ele mesmo e não para sua deficiência, percebe-se que são grandes suas potencialidades e que nós, pessoas sem deficiência (aparente) temos muito mais a aprender com eles do que a ensinar a eles.
Abençoados são todos aqueles que conseguiram despir-se de suas armaduras, medos e, principalmente, preconceitos para lidar antes com suas deficiências para então entregarem-se de coração a essas pessoas maravilhosas, que independente de qual deficiência tenham, ensinam-nos a valorizar as pequenas coisas da vida.
Com elas eu descobri que minhas angústias não tinham nenhum significado perto das coisas maravilhosas que a vida oferece. Aprendi a valorizar pequenas coisas, pois é aí que se encontra a verdadeira riqueza da vida. Aprendi, então, a ser mais feliz.

"Bem aventurados os que me amam como eu sou, tão somente como sou e não como todos gostariam que eu fosse" [Serrano,J.A]