domingo, 20 de julho de 2008

Ego

Ego.
Egoísmo.
Egotismo.
Egocentrismo.
Egolatria.
Vaidade!
De acordo com a psicanálise, ego é uma instância psíquica que permite que o indivíduo proteja-se da realidade, das pulsões e dos imperativos do superego. Laplanche e Pontalis explicam que, do ponto de vista dinâmico ( já que o ponto de vista tópico e o econômico não caberiam nesta minha reflexão), o ego representa no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados pela percepção de um afeto desagradável, ou seja, um sinal de angústia.
As ações controladas pelo ego, muitas vezes são puramente defensivas. O ego gera uma espécie de proteção da realidade e permite que o indivíduo se defenda daquilo que não lhe agrada. Essas ações defensivas do indivíduo podem ser consideradas como expressão da vaidade do ego.
É comum as pessoas sentirem intenso desejo de vingança quando lhes acontece um fato no qual se sentem desprivilegiadas. Há também certa dificuldade em aceitar que o outro se saia melhor em uma determinada situação ou mesmo que tenha imaginado uma forma diferente de sair desta. Todas essas impressões são imanentes à vaidade.
É dessa vaidade que surge então, como um mecanismo de defesa, o ressentimento! Ah... mas esse é um afeto que poucos têm a coragem de assumir que sentem! Para Nietzsche, o ressentimento é um afeto que “não ousa dizer seu nome”. Com base nisso, Maria Rita Kehl, afirma que o ressentimento “quando nomeado, revela sua face negativa, de envenenamento psíquico e moral; mas quando é velado por uma pretensa pureza moral, goza da adesão e da simpatia da maior parte das pessoas”.
Não é difícil reconhecer o ressentido. Ele tem o desejo de vingança fortemente instalado em seus pensamentos. Mas não tem desejo pela vingança banal de querer ver o outro sofrer o mesmo que ele sofreu. Não, muito pelo contrário: a melhor vingança para o ressentido é exibir diante do ‘agressor’ um bem conquistado, um sucesso, um momento de felicidade.
A exibição de algum momento de felicidade, de algo bem sucedido diante daquele que fez o indivíduo tornar-se ressentido é um simples mecanismo de defesa do ego para escapar de uma realidade que não lhe agrada e não passa de uma forma de expressão da vaidade do ego!

domingo, 6 de julho de 2008

Medo ou mundo?

Era de vidro. Mas não era desses brutos que se vê por aí, era vidro do bom, vidro fino, que você tem que tomar cuidado ao pegar. Não é vidro que se tem na casa de qualquer um não... Só pessoas com a mão leve, que sabem tocar suavemente nas coisas que podem ter. Era belo.
Sim, era belo! Muito belo. E ele o queria para si. De início, pensou que não poderia ter algo assim tão belo para si, mas não demorou muito, notou que estava ao seu alcance, bastava um pequeno esforço. Ele só não sabia que era necessário ter leveza nas mãos para tocar. Pensou que poderia também tocar ou até mesmo tê-lo para si. Os primeiros toques foram suaves, com a leveza e receio de quem se arrisca a algo novo e teme as conseqüências. Mas logo foi acostumando-se com aquele tipo de beleza, de sensibilidade. Era prazeroso o toque, ou até mesmo apenas apreciá-lo.
É fácil acostumar-se com coisas boas.
Esqueceu-se de que ao se acostumar, não poderia deixar de ter a leveza e suavidade ao tocar. E então passou a apenas apreciar, não se preocupava mais com o cuidado que deveria ter...na verdade, nunca se preocupara.
Foi pelo descuido, pelo anseio de ter para si que se quebrou! E claro, como é vidro fino, não quebrou em pedaços grandes, mas estilhaçou em pedacinhos, que não poderiam ser mais unidos. Percebeu que era o fim.
Passou a sentir medo de tocar nas coisas. Achava que seu toque poderia destruir coisas belas, coisas das quais gostava e sentia prazer em tê-las. Triste seria se fosse com objetos, mas passou a sentir esse medo com pessoas. Medo de tocá-las, de sentir. Temia que ao tocar, ao se aproximar e se entregar, faria algum estrago grande que não pudesse ser revertido. Foi acusado muitas vezes por seu medo, o chamaram de inseguro, de fraco, diziam que ele estava fugindo.
Sabe que é natural sentir medo, e que todos têm seus medos, suas inseguranças com relação às coisas da vida. Por mais escondidos e silenciosos que sejam.
Medo! Mas... De que? Do escuro? Da violência? De perder o emprego? De baratas? De não ter um grande amor? Ou de se entregar a uma paixão? Medo de dirigir? Medo de se arriscar? Medo de adoecer? Medo de altura? Medo de morrer? Medo de viver?
Percebeu que a diferença entre as pessoas se dá na forma como lidam com seus medos e inseguranças. Tinha medo sim, mas o enfrentava. Recuperou a leveza que havia tido anteriormente e se entregou à vida.
Outro dia ouviu de uma colega que “sem o medo, há o mundo”, e entre o medo e o mundo...escolheu o mundo!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O grito

Naquele silêncio ensurdecedor percebeu que não dava mais para agüentar! Foi preciso o silêncio daquela noite de lua cheia para que percebesse.
O silêncio a incomodava, não sabia lidar com isso. Gostava mesmo era de palavras, daquelas bem simples, mas cheias de significados. Apreciava aquelas palavras bonitas ditas em novelas, mas também sabia que na vida real, essas palavras raramente eram ditas com seu real significado. Na vida real, essas palavras eram vazias.
Entre palavras vazias e silêncio, aí sim, preferia o silêncio. O silêncio às vezes dizia mais do que as próprias palavras... É isso! O silêncio falava mais com ela do que as palavras! Não, isso não era bom. No silêncio, ela ouvira coisas das quais não queria saber! No silêncio ela sabia... Sabia que era seu momento. Era o momento de uma conversa franca consigo mesma. Era o momento da confissão de angústias, fantasias, medos e até daqueles sentimentos mais tolos que sentira em segredo.
Ainda assim, o silêncio não lhe agradava. Gostava de palavras e gostava de barulho. Mas não do silêncio. Era preciso quebrar esse silêncio. Numa noite tão bela como aquela de lua cheia, tinha certeza de que as palavras estragariam tudo. Minutos e minutos foram passando até que não agüentou! Quebrou toda a graça de seu momento, toda a graça do silêncio com um grito! Não...claro que também não seria um grito qualquer! Isso seria banal demais. Não poderia ser simplesmente ‘um grito’, tinha que ser ‘o’ grito!
Quietinha ali na varanda a observar a lua, deu um grito interno, quebrando o incômodo silêncio e a graça de seu momento. Foi um grito libertador, que a fez sentir-se mais leve e renovada. Tudo que estava inquieto dentro de si com o silêncio, pôde então se libertar e se tranqüilizar, pois sabia que a cada nova inquietação na mente ou na alma ela podia recorrer a algo interno - que mesmo sendo mudo, fazia o barulho necessário para quebrar o silêncio - e que era só seu, o grito!